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Passagens de uma vida-extraordinária
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w28.4.03 |
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Outro dia eu ouvi uma coisa que me deixou intrigado, foi numa entrevista com uma das maiores bandas de rock da atualidade. Quando perguntado sobre o processo de seleção das músicas que entrariam no próximo disco da banda, o vocalista dispara a seguinte pérola: "... para esse disco nós compusemos 18 músicas. Como só é possível entrarem 14, entregamos todas para a gravadora e deixamos que eles escolhessem qual eram as melhores porque pra mim são todas iguais, gosto de todas, e eles entendem disso bem melhor do que a gente...". !!!!!!!!!!??????? Dados complementares: essa gravadora a qual o vocalista da banda se refere acabou, o cara que escolheu as músicas que entraram no último disco dessa banda provavelmente está desempregado, essa banda tem quase 20 anos de carreira e mesmo assim não se dá autonomia para escolher as músicas que vão entrar no próprio disco! Vão ter que ir para estrada defender um repertório que foi escolhido por um burocrata sentado numa sala pensando em números!
Provavelmente essa banda acredita naquele conceito, não sei se vcs já ouviram, "disco de carreira". Deixa eu explicar: disco de carreira é uma expressão adotada no mercado para aquele disco que a banda lança para ganhar território, para receber elogios, um disco do qual não se espera que venda muito, mas que sirva para levantar a moral da banda no mercado. Se vcs prestarem um pouquinho de atenção dá pra perceber que muitas bandas utilizam essa metodologia, alternam discos com músicas fáceis, sonoridade previsível, clichês, regravações de antigos sucessos, com discos mais autorais, que possuem um conceito, que apontam para uma direção diferente da que o mercado aposta suas fichas. Será mesmo? Pra falar francamente tenho tomado conhecimento de muito poucos "discos de carreira", a maioria do que se lança no pop/rock brasileiro atualmente me soa como uma incessante busca pela fama e pelo dinheiro, discos com 14 tentativas de emplacar uma música no rádio.
Outra coisa que me levou a escrever esse texto foi o depoimento de uma conhecida banda inglesa que eu vi ontem na MTV. Quando perguntaram para o cara como era o processo de seleção das músicas que entravam nos discos da banda dele, a resposta foi essa: "... nós fazemos algumas músicas e vamos tocando nos shows. Daí analisamos a reação das pessoas, se as músicas agradam, e as que o pessoal não aceita tão bem vão saindo do páreo, até que consigamos fechar um número suficiente de músicas para fazer um disco..."...................... Será que esses caras não têm vontade própria? Será que é um absurdo falar em autoralidade artística?! Será que a única forma de se sobreviver de música é sendo rico e muito popular? Baseado nesses casos cheguei a uma triste conclusão: existem dois tipos de músicos, os "músicos por profissão" e os "profissionais da música". Os "músicos por profissão" são aqueles que utilizam a música como uma forma de expressão genuinamente artística, que ganham dinheiro fazendo música, mas que fariam mesmo que não ganhassem dinheiro, por hobby ou por puro prazer. O outro tipo, os "profissionais da música", são aqueles caras que montam uma banda para ganhar dinheiro. Consideram o meio musical uma boa forma de ficarem ricos e fazem de tudo para conseguir isso o mais rápido possível. Eles não têm nenhuma pretensão artística, fazem o que é melhor naquele momento para atingirem logo seus objetivos e gozarem de uma boa vida. São músicos, mas poderiam exercer qq outra profissão.
Isso é muito triste. Essa distinção que estou fazendo nem sempre é percebida e são esses caras que enfraquecem a categoria, aceitando qq condição de contrato, se submetendo a papéis ridículos para aparecer na televisão, servindo de péssimo exemplo para as futuras gerações e desmoralizando a minha profissão. E não é só no campo da música não; hoje em dia qq programa de auditório tem que contar com a participação de um desses caras saídos de reality shows que criaram uma nova categoria, o artista sem arte. O cara não é nada, não faz nada de interessante, não tem nada para oferecer, só é uma pessoa que apareceu na televisão e ficou famoso, profissão? Famoso temporário, porque o tempo costuma ser cruel com essa categoria.
Já perceberam que hoje em dia ninguém mais tem vergonha de deixar transparecer que o principal objetivo da arte é fazer sucesso? O que não falta por aí e gente dizendo "... lançamos um disco no ano passado mas não deu muito certo, daí corrigimos o que estava errado, mudamos o rumo do nosso trabalho e graças a Deus estamos aqui de novo", o auditório aplaude, é bonita essa redenção. Esse é o panaroma que o artista brasileiro tem que enfrentar, seja ele ator, pintor, músico ou faça ele qq outra arte. Os meios que temos para divulgar nossos trabalhos são os freqüentados por esses falsos profissionais. Essas pessoas são o padrão de artista exemplar, aqueles que topam tudo, que aparecem de cueca pagando mico, que pulam de Bungee-Jump para divulgar a peça de teatro, que bebem 12 côcos em 5 minutos para dizerem que têm um disco novo, é isso aí que se espera de um artista. Artista não é palhaço! Ainda bem que existem os lugares que ainda não se contaminaram por essa lógica. São poucos, são minoria, mas existem. Não é de se espantar que hoje em dia seja uma grande dificuldade arrumar um lugar para uma banda tocar ao vivo na televisão. "... É que dá trabalho, tem que ter equipamento, passar o som, e no final, quem se importa com isso?" Tá bom, o pensamento é esse mas aqui caímos no velho Teorema Tostines : Será que o telespectador não assiste bandas ao vivo na tv porque para ele não faz diferença mesmo ou será que não faz diferença mesmo porque ele nunca tem a oportunidade de assistir?
posted by bruno at 08:36
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w25.4.03 |
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Não sei se alguém ainda não sabe mas ontem foi a estréia oficial do nosso novo single "Cara Estranho" em todo Brasil, portanto, quem estiver curioso para ouvir ou quiser ajudar a banda a tocar esse disco pra frente pode pedir a música aí, na rádio da sua cidade, ou ouvi-lá em stream no site do Los Hermanos.
posted by bruno at 08:53
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w20.4.03 |
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É impressionante o quanto me falam desse blog por aí. De cada 5 entrevistas que dou ultimamente em 3 os caras dizem que lêem esse blog. É engraçado porque tb tem aquelas pessoas que eu já conheço há bastante tempo mas não tenho contato direto que num momento inesperado de conversa vêm me dizer que são leitores assíduos do Instante Anterior. Tudo isso é ótimo mas só aumenta a minha responsabilidade, não posso sair escrevendo qq coisa, muita gente que eu conheço passa aqui e a grafia continua sendo uma pedra no meu sapato.
Os anos passam, a escola e a faculdade vão ficando pra trás e aquelas palavras bobas do dia a dia as vezes travam, me dá branco e se não fosse a correção automática do word....As vezes volto aqui e vejo uns erros bisonhos mas acho que vcs entendem que na hora que o texto está vindo eu tenho que correr para que ele não escape de mim, e as vez fica um acento aqui, uma vírgula lá, um "s" pelo caminho, mas quem se importa?
O Paulo Coelho uma vez disse que não corrige os erros ortográficos dos livros dele porque acredita que eles fazem parte da sorte do livro. Não que o Paulo Coelho seja meu guru, pra falar a verdade eu nunca li nenhum livro dele, mas gostei de ver as coisas por esse prisma.
Porra eu erro mesmo, erro feio, mas tem muita gente que tá com o português "encimão" da escola e não consegue concatenar duas linhas juntas. Isso quer dizer o seguinte: não faça só o que vc faz muito bem, faça o que vc tem vontade de fazer e os outros que se danem! Para se começar alguma coisa tem sempre que ter alguém para ser tachado de arrogante, de convencido, de metido, de pouco humilde porque começar qq coisa é sempre a parte mais difícil, se vc não acredita em vc mesmo quem vai acreditar?
Quando eu comecei com esse blog em setembro do ano passado sinceramente não acreditava que teria o que escrever depois do terceiro ou quarto mês e estou aqui, firme e forte, daqui há pouco faz um ano. Eu não preciso disso aqui pra nada, mas adoro fazer. Esse blog foi divulgado para 34 pessoas, sendo que 3 eram os caras da banda, só pra vcs terem uma idéia. Nunca mais eu falei sobre esse blog com ninguém, e hoje já tenho mais de 25.000 visitas. Fico feliz com esse número mas se só tivessem 327 pessoas eu ia continuar escrevendo do mesmo jeito. Quando eu ainda tinha comments algumas pessoas escreviam que não tinham mais vontade de ter um blog porque sabiam que nunca teriam tantas visitas quanto eu tenho, e que isso acontecia porque eu era o Bruno do Los Hermanos.
Realmente, esse blog é visitado por muitos fãs do LH, mas o que eu posso fazer? Impedi-los? Em qualquer coisa que eu faça hoje em dia, incluindo cortar o cabelo, o fato de eu ser o Bruno do LH conta. Antigamente eu era o Bruno da PUC, o Bruno da sala 51 na escola, o Bruno filho do Luis e da Márcia. Cada um é o que é. Tudo que se faz na vida tem que ser feito unicamente para agradar a vc próprio, fazer coisa pros outros não funciona. Agora mesmo por exemplo, tenho recebido mais de 300 visitas diárias, provavelmente porque tenho escrito sobre o disco e muita gente está a fim de saber as novidades da banda, a lógica seria que eu continuasse escrevendo sobre esse assunto, mas eu prefiro no momento escrever esse texto com cara de "papo de padre depois da missa de domingo", qual é a vantagem de se ter um blog se eu não posso fazer isso?
Lá em cima eu disse que a boa visitação aumenta a minha responsabilidade mas não determina a minha pauta, de jeito nenhum! O próprio LH; imagina se a gente ficasse pensando "vamos fazer uma música assim para agradar à Fulano", só que para cada Fulano feliz existem mil Beltranos putos, então, meu amigo, vai por vc. Faça o seu blog para 25 pessoas e seja feliz, faça a sua música para vc e seus companheiros de banda e é possível que dê certo, não se espelhe em ninguém, cada caso é uma estória diferente.
Não sei porque estou escrevendo isso tudo mas provavelmente deve existir uma razão, hoje é domingo de páscoa, sei lá, deve ter algum tipo de sentimento cristão envolvido no meu estado de espírito. Acho que é o primeiro ano que ninguém me deu ovo de páscoa, mas eu estou feliz. Aquela obrigação de ficar comendo tudo logo para se livrar daquele papel colorido todo arregaçado no seu quarto, aquelas migalhas de chocolate em cima do móvel, dor de barriga, não dá. Eu estou me sentindo o He-man no final do episódio quando ele olhava para a câmera e dava conselhos maneiros, portanto aprenda com o Gorpo: seja feliz. Até o próximo post.
posted by bruno at 12:08
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w16.4.03 |
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Ontem a noite recebi a notícia de que o single só vai estrear mesmo no dia 24 de abril porque houve um problema na fábrica. Pra falar a verdade apesar da ansiedade achei melhor porque dá mais tempo para a gente pensar num clipe legal e encurta o tempo entre a música tocando na rádio e o disco nas lojas (12 de maio). Portanto prá quem quer ouvir a música nova o jeito continua sendo pedir nas rádios de Recife.
posted by bruno at 09:50
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w15.4.03 |
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O que foi o show de Recife? Não dá pra explicar, só mesmo quem estava lá vai saber o que aconteceu, não existem palavras para descrever. Só digo que o Rio vai ter que se esforçar pra continuar sendo nossa casa, nossa melhor praça, eu não entendo direito como mas nós temos muitos, muitos fãs fervorosos em Recife. Foi assim, uma catarse. O Bubu nosso trompetista acha que foi o nosso melhor show da vida, e se não foi, chegou muito perto disso. Só pra vcs terem uma idéia quando o nosso roadie subiu no palco para montar os equipamentos, 90% das pessoas se posicionaram em frente ao nosso palco (estava rolando outro show no segundo palco) e ficaram ali, olhando para o escuro, esperando a gente entrar. Como ainda demorou um pouco, eles começaram a cantar várias músicas do Bloco, dava pra ouvir lá de dentro do camarim. Quando subimos no palco devia ter umas 6 mil pessoas gritando, foi foda. O show teve até "Vassourinha" e aí o negócio veio abaixo mesmo, só estando lá para saber. Te digo que se vc esteve no nosso show no Canecão tem que imaginar duas vezes aquilo, em número de pessoas e euforia. Foi um começo com pé direito prá caralho! Fiquei impressionado mesmo com o número de fãs que temos lá. Penso que o Bloco foi um disco que vendeu pouco, nem chegou em muitas cidades, não tocou no rádio mas mesmo assim a maioria das pessoas sabia cantar todas as músicas. Era tipo olhar para o lado e ver o fotógrafo do show cantando, olhar para frente e ver o pessoal que ia tocar no outro palco cantando, parecia muito que a gente era de lá. O Caito, que foi filmar o show, disse que a gente tem pelo menos uns 10 anos pela frente de shows foda por lá, tb acho. A MTV estava lá e gravou um pouco do show, se eu conseguir descobrir quando passa eu boto aqui para vcs verem do que eu estou falando. Gravamos tb uma matéria no lugar que inspirou a capa do novo disco, não vou dizer onde é pra não perder a surpresa...Bom, amanhã é a estréia nacional do single "Cara Estranho", se vc quiser ouvir ligue para a rádio da sua cidade e peça a música, se a rádio não souber do que se trata continue enchendo o saco. As vendas e shows de um disco estão muito relacionadas com as execuções em rádio, portanto quem puder pedir a música pode estar trazendo o show do Los Hermanos para a cidade de quebra.
posted by bruno at 10:07
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w10.4.03 |
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É tanta correria que acabei esquecendo de falar aqui sobre os shows das Lonas, foram bem legais os dois. O público das duas noites era razoavelmente diferente e o repertório mudou um pouco de um show para outro mas nas duas noites tocamos 5 músicas novas. Esse período de transição entre discos é difícil porque ninguém conhece as músicas novas e por mais que a reação das pessoas seja positiva é bem diferente daquela sensação de todo mundo cantando tudo que costuma acontecer nos nossos shows. De qq maneira isso é uma questão de tempo, tenho certeza que em muito breve não se saberá a diferença entre as músicas novas e as mais antigas. No sábado estamos indo para Recife para a tão aguardada apresentação no Abril Pro Rock. Antes de mais nada deixa eu esclarecer que o Abril Pro Rock nada tem haver com nossa extinta gravadora Abril Music, vc que é espertalhão e está lendo isso pode pensar "que tipo de idiota faz essa associação? Todos sabem que o APR é o maior e mais tradicional festival do nordeste!", mas eu vou te dizer que muitas pessoas já nos perguntaram sobre isso na vida, a maioria jornalistas musicais. Pois bem, acho que o show vai ser ótimo tomando pelo último que fizemos lá onde muita gente ficou de fora porque não cabia mais. Com certeza quem não estiver lá vai perder um momento emocionante, ainda bem que eu vou! Recife é atualmente o único lugar onde o nosso novo single, "Cara Estranho", está tocando, o lançamento foi antecipado por causa do festival. A Rádio Cidade pode ser escutada pela internet e ontem mesmo eu ouvi a música. Uma menina me disse que pediu a música por email e conseguiu ouvir com dedicatória e tudo, portanto se vc está curioso para ouvir a música nova vá até o site da rádio e peça a música por email, assim como a Suzana. Bom, vou encerrando por aqui por que estamos na maior correria finalizando a parte gráfica do disco e fazendo uma música para a trilha sonora de um filme, depois eu dou detalhes.
posted by bruno at 09:31
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w4.4.03 |
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Essa foto aí de baixo.... eu tirei de primeira, um só clique, e achei que valia pelo momento, mas agora voltei no blog e fiquei surpreso com a minha careta. É a primeira vez que eu me vejo assim e de barba, não estou me reconhecendo. Acho que estou parecendo o Gonzo dos muppets, uma caricatura, sei lá, e por eu estar sem camisa parece que eu estou fazendo coco, não que eu faça essa cara, mas, vcs entenderam. Mostrei para minha mãe e ela não gostou. Ela acha que eu sempre tenho que aparecer lindão, que os fãs isso e aquilo, que é falta de respeito, que pega mal. Nos shows ela fala que eu rio pouco mas quem já não sabe disso? Sempre que vejo o Charles Watts do Rolling Stones fico pensando se as pessoas ficam dizendo pra ele "Vc nunca ri! Vc está com algum problema, está chateado, não gosta da gente, não está feliz, o que houve? Vc é assim mesmo? É tímido? Está com sono? Está irritado? Não gosta da gente? Não está feliz, o que houve?". A minha esperança é pensar que se isso tem que ter parado nos primeiros 15 anos de banda senão o cara não suportaria. Acho que minha mãe pensa que nem o Frejat, que disse uma vez na Revista da MTV que o artista que se apresenta gordo e sem fazer a barba está desrespeitando o seu público. Provavelmente na escala do Frejat não existe classificação para a nossa banda, não pode haver! Bom, eu me excluo desse comentário porque sou claramente o cara mais elegante da banda, corto até minha barba com tesoura de vez em quando e sou o único que não usa roupas rasgadas e/ou amassadas.
posted by bruno at 11:40
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