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Passagens de uma vida-extraordinária


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w27.1.04


Sobre o último post recebi o email de uma menina que é médica e me garantiu que eu "viajei" com esse negócio de alma pesar 21 gramas, que não foi nada disso que o filme quis dizer. Eu achei engraçado porque na verdade, na maioria dos casos, pouco importa a versão oficial, importa o que significa para cada um. Não existem verdades coletivas, apenas opiniões individuais, seja qual for a pauta. A emoção e o prazer são individuais e intransponíveis, o resto é gatilho, o filme, a música, o chocolate, só disparam algo que na verdade precisa existir dentro de vc. Sempre que nos perguntam sobre as interpretações, sobre as verdadeiras histórias por detrás das músicas, fugimos pela tangente. Acho que saber a verdadeira história de uma música tem um pouco a ver com aquele sentimento de deixar de acreditar em papai noel. Quando vc é criança e está sentindo que a farsa vai rodar o melhor seria recuar. Foi que nem uma vez que eu vi o Chico Buarque, ensaiando num estúdio, na sala ao lado da que nós ensaiávamos. Eu gosto tando da obra dele, já praguejei tantas vezes esse desgraçado, tamanha habilidade que ele possui com as palavras e com as emoções, que logo constatei que se eu interrompesse aquele momento mundano em que ele tomava água de côco recostado no balcão para dizer qualquer coisa , seria insignificante. Porque pra ele seria só mais um pela-saco, um entre tantos outros em quase 40 anos, e para mim seria frustrante perceber que aquele momento para ele não significaria nada além da interrupção do fluxo que vinha pelo canudo para articular um obrigado da boca pra fora. Portanto sigo ouvindo meus disquinhos do Chico feliz, achando o cara um grande mestre, gente boa e talentoso. Ah, viva o faz-de-conta! O que importa é o sentimento, a verdade é só uma mentira que deu certo. Tem uma música da Legião Urbana que diz "já não sou mais tão criança a ponto de saber tudo". É isso aí; perseguir a verdade o tempo todo significa descobrir que o mundo não é perfeito, que todo mundo tem um lado estranho e que sua alma gêmea às vezes não aparece. Não é a sujerinha da grelha que dá o gosto no churrasco? Então pra que botar tudo em pratos limpos sempre? É que nem aquela criança-mala que vai na festa, descobre o truque do mágico e conta pras outras. Eu quero mais é acreditar no mágico; que a cartola é infinita, que as pombas voam para a liberdade a cada festa de playground e que o mágico vai pra casa se tele-transportanto e não de fusca bege. Qual é o preço da ilusão? Todo mundo precisa de algo sem explicação, de um limite intransponível, de um horizonte. Até mesmo a ciência, que empurra Deus com a barriga a cada nova descoberta. No meu Rio de Janeiro quando olho para o mar e vejo ele encontrando com o céu lá no infinito eu sei que aquilo que eu estou vendo não existe, e isso me faz dormir mais tranquilo. Porque na boa, ter consciência do aquário, para o peixe, deve ser uma merda. As vezes ando por São Paulo e me angustia a falta desse ponto de escape, procuro esse conforto visual do imponderável em algum lugar, mas não tem. Não tem uma montanha que seja para haver o por detrás, tudo está ali, à mostra, na imponência construída. O horizonte começa no 22o andar e vc sabe o que fazer para conquistá-lo. Daí a fé se volta pra dentro de cada um, de seu trabalho, e não para o além do que se vê. Muita gente critíca a mercantilização da fé mas se eu pudesse comprar minha paz de espírito com 10% do meu salário te garanto que pagaria sem pestanejar. Deixa o cara acreditar que está comprando um pedaço do céu, não é isso que todo mundo deseja no fundo? A cobertura em São Paulo, o carro do ano, a festa de arromba pro casamento da filha, a foto que vira lembrança do que não volta, tudo pertence a mesma categoria: sonho, realizado ou não, mas acima de tudo sonho. É apenas uma questão de acreditar; o placebo para o doente, a alma para o pagão, a sorte para o preguiçoso, a vida para o covarde, a religião, o mágico da festa, o horizonte...

posted by bruno at 16:19



w22.1.04


Semana passada finalmente assisti ao filme 21 gramas, algo me intrigava toda vez que eu via esse thriller em específico; todo mundo perde 21 gramas no exato momento em que morre. O filme não trouxe a constatação que eu queria, que a alma existe fisicamente e pesa 21 gramas, mas ao mesmo tempo não elucidou a questão com fatos científicos portanto, ao subir dos créditos, minha tese ainda vigorava. Não sei como chegaram até esses dados mas se essa história for verdade a minha, a sua alma pesa tanto quanto uma barra de chocolate. Carne, sangue, ossos e 21 gramas de alma. Será que é isso? Porque tenho a impressão de que as pessoas prefeririam descobrir que suas almas ocupam uma parte maior, mais pesada do que são? Será que é melhor ter uma alma mais pesada ou uma alma mais leve? O que é melhor: o peso ou a leveza? Está aí a discussão central do livro A Insustentável Leveza do Ser: segundo o Kundera não se pode concluir que o peso é negativo e a leveza positiva, porque o peso é o lastro da vida. É através das grandes experiências, as que tangenciam nossos limites, que percebemos a grandiosidade da existência. "Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira". Ao passo que quanto mais leve, mais próximos estamos da idealização, do semi-real, da liberdade total porém sem relevância. Entre ser um gênio frustrado ou um medíocre feliz, o que vc escolheria? Agora pense de novo. É complicado. Aprendi que não se pode eliminar deliberadamente a angústia do leque de sentimentos, porque de certa forma é esse sentimento que nos move pra frente. Porque haveria o fogo se o homem não tivesse sentido frio? Porque haveria a roda se não houvesse necessidade de transporte? A angústia é a mola propulsora da evolução. Sentir-se angustiado em muitos casos assinala o prenuncio de uma mudança significativa. É portanto o caso de um sentimento que transita entre o peso e a leveza. É engraçado como esses sentimentos mudam de significado dependendo do viés por onde se vê. No livro existe uma passagem interessante sobre a palavra compaixão; nas línguas derivadas do latim a palavra se forma pelo prefixo com e a raiz passio, que significa sofrimento. Em polonês ou em tcheco, por exemplo, a palavra se forma com o mesmo prefixo seguido da raiz sentimento. Portanto para os latinos compaixão significa que não se pode olhar o sentimento do próximo com o coração frio, sugere uma certa indulgência por aquele que sofre, é considerado um sentimento menor. No outro caso a tradução seria co-sentimento, ou seja, compaixão é dividir o sofrimento com alguém, tem um caráter muito mais otimista. Angústia e compaixão permeiam uma vida de experimentações, porque, pelo que se sabe até agora, só temos uma para aprender a viver. O Kundera diz que é como se sempre estivéssemos numa apresentação teatral sem ensaio, onde tudo acontece sem que os atores estejam preparados. Portanto a vida mesmo é aquela que não foi vivida e sim a que vc viveria se pudesse ter outra chance: se eu tivesse continuado naquele emprego, se eu tivesse deixado de viajar, se eu tivesse me dedicado mais, se eu soubesse me relacionar melhor com as pessoas...Tá, isso é pessimista, mas é bonito. Pô, eu sou latino! O Nietzsche tem uma tese que se chama eterno retorno. Segundo essa tese tudo que vivemos se repete indefinidamente. A vida que vai se repetir é como uma sombra, já está morta desde sempre. Isso cria uma perspectiva na qual todas as coisas se apresentam sem a circunstância atenuante da fugacidade. "No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza", e esse é exatamente o mais pesado dos fardos. Agora uma coisa tem me preocupado bastante ultimamente: será que eu estou virando o Paulo Coelho? Gente, é assim que começa. Um caô aqui, uma filosofia ali, daqui a pouco tem uns caras que começam a entrar na onda, eu vou me empolgando, visto uma bata, viajo pra índia, escrevo um livro sem muito fundamento, começo a profetizar e logo estarei falando que sei fazer chover. Daí a Madonna passa a citar os meus livros e fudeu: Academia Brasileira de Letras na cabeça! Eu até já tenho uma passagem pela ABL. Quando eu estava no primeiro ano do segundo grau fui finalista de um concurso de redação inter-escolas. Não ganhei nada, mas com 15 anos estava lá sentado entre os imortais, que provavelmente tiveram que ler dezenas de redações estúpidas. Mas eu senti um chamado. Uma voz que dizia para eu seguir em frente, escrevendo, que um dia eu estaria lá tomando chá e fazendo piadinhas sobre Machado de Assis. Não adianta, o destino de todo mundo que escreve é a bata: a da ABL, a da feira hippie ou a do hospício.

posted by bruno at 09:09



w15.1.04


Recentemente li um livro do qual gostei muito, chama-se A Insustentável Leveza do Ser, que já está recomendado desde já por esse blog, à todos e em caráter irrestrito.. O filme é bem manjado, apesar de eu não telo visto, e, sinceramente, nem sei se vou ver; pode ser profundamente decepcionante ver materializado na tela algo de que gostei tanto na imaginação. O livro discorre sobre dois romances chave e como esses se relacionam entre si, entretanto o aspecto mais interessante se deve ao fato do autor inserir dentro da narrativa discussões filosóficas e isso não fica estranho visto que a filosofia se relaciona totalmente com o cotidiano, pelo menos deveria, na minha humilde opinião. A filosofia existe como enxerto para o vazio da existência. A existência é muito angustiante. Pensar porque existimos, qual é o nosso papel na vida, na nossa própria e na dos outros, e outras questões desse nível sempre fizeram parte do imaginário humano. Curioso que seja uma condição imutável em milhares de anos e ainda mais curioso é saber que existem teorias com centenas de anos que ainda se aplicam perfeitamente à nossa vida atual. Eu me lembro que na faculdade tive aulas de antropologia, sociologia e filosofia respectivamente nos três primeiros períodos, quando eu estava sinceramente mais preocupado com as meninas do que com Platão e Levi-Strauss. Aliás, acho que existe um preconceito muito grande com a filosofia porque falta didática no aprendizado. Fora os grandes pensadores existem vários caras escrevendo sobre cultura de massa, cultura pop, televisão, estudos recentes dos anos 60, assuntos que potencialmente poderiam ser muito mais interessantes pra um cara de 18 anos por fazerem parte do cotidiano dele. Daí vc aprende da forma errada e acha que filosofia é um saco porque não vê nenhuma utilidade prática pra esse pensamento na sua vida. Eu me lembro que no Jogo da Vida da Estrela, aquele de tabuleiro, no final vc tinha uma única opção: tentar a roleta da sorte para ser magnata e ganhar o jogo. Caso vc não tivesse sorte na roleta seria filosofo no campo e perdia o jogo. Olha o que eles ensinam pras crianças: ganhar dinheiro é tudo na vida, se vc fracassar vai ser um fudido que vai ficar pensando na sociedade e na existência ao invés de trabalhar sério, tipo bater ponto, não me surpreende que a filosofia interesse a tão poucos. No ponto de partida do jogo me lembro da minha reflexão juvenil: "tenho que ser médico ou advogado" (o salário era de 50.000). Girava a roleta e se caísse em físico ou professor (salário de 30.000) já era zoado pelos parceiros de mesa: "Ah, se fudeu, professor!". Hahahaha, daí na vida real eu escolhi ser publicitário e depois músico, ou fui escolhido, sei lá, mas estou aqui. O meu irmão é promotor, acho que ele levava o jogo mais a sério do que eu, aprendeu bem a lição. Mas é fácil perceber o valor da reflexão e do pensamento no mundo de hoje: nada que não seja pragmático merece muito respeito. Eu por exemplo, que sou músico, lido com esse universo de ócio, arte e criação e estou sempre aí de bermuda, barba por fazer, circulando por horários alternativos no prédio, até mereço alguma consideração porque faço parte de uma banda razoavelmente conhecida. Mas e se não fosse? Se não saísse no jornal e não aparecesse na MTV? Aí é vagabundo na certa, "vai trabalhar, safado!". Esse conceito de vitória a qualquer preço é inserido em nossas pequeninas cabecinhas desde muito cedo. Tenho uma conhecida que me contou que o pai dela lhe dizia para sempre andar com pessoas que fossem melhores do que ela, para que ela pudesse se esmerar e ser melhor tb. Pesado, né? Enfim, aí vc cresce e acaba gostando de uma música que diz "eu que já não sou assim, muito de ganhar, junto as mãos ao meu redor/ Faço o melhor, que sou capaz, só pra viver em paz", e é isso que eu quero, viver em paz. Não quero ser melhor nem pior do que ninguém, será que pode? Claro que pode. Já dizia Mário de Andrade que a felicidade é a prova dos nove; se somar as parcelas e der nove no final a conta está certa, não importa porque nem como. É isso que muita gente não entende, não adianta ficar correndo atrás de uma felicidade que não existe, perfeita, idílica.O importante é ser feliz agora. Voltando ao livro que citei e não falei porra nenhuma sobre (estou parecendo um filósofo!), existe uma passagem muito interessante sobre o conceito do Kitsch, essa palavrinha alemã que virou sinônimo de cafona, mas é muito mais do que isso. O Kitsch, em essência, é a negação absoluta da merda. Porque ou a merda é aceitável (então porque nos trancamos no banheiro?) ou então Deus nos criou de maneira inadmissível, esse é o paradigma. O Kitsch é a vida perfeita, sem defeitos, é a eliminação de tudo que há de ruim, de errado, é a felicidade conceitual. No reino do Kitsch impera a ditadura do coração. Como esse conceito se cria a partir de imagens que sejam universais, visto que a diferença é o erro, o Kitsch virou sinônimo de cafona porque trata de um assunto que é comum à todos, que está no imaginário de todo mundo, e isso vai contra a idéia da nossa sociedade, que é a da individualização. Roupa de marca, jóias, carro do ano, todos símbolos de status que mostram pra sociedade que vc é um vencedor, porque tem dinheiro, tendo ou não jogado o Jogo da Vida na infância, como eu. Bom, o livro segue com outras discussões sobre as quais eu até gostaria de escrever aqui, quem sabe no futuro, por hoje já foi o suficiente. Bruno e a pedra filosofal.

posted by bruno at 17:19



w8.1.04


Hoje aconteceu um fato curioso aqui na minha rua; estava pegando fogo num prédio, ou algo que se aproximava disso, porque chamas mesmo eu não vi, só senti um cheiro de borracha queimada no ar e um certo aperto no coração quando vi 5 caminhões de bombeiro na minha rua. Parei com minha sacolinha junto ao que nessa hora já eram centenas de pessoas e fiquei olhando pra cima, em busca de um rastro de fumaça saindo de uma janela ou de algum indício que me explicasse a dimensão do incêndio. Depois de 2 minutos e uma tentativa frustrada de puxada de conversa com o guardador da rua, segui meu rumo seguro de que o fogo não consumiria os gatos e o papagaio aqui de casa, vítimas inocentes a poucos metros de distância do sinistro. Se vc já bateu com o carro sabe que essas coisas, ou seja, essas merdas, tipo incêndio, porrada, acidente, são chamados coloquialmente de sinistro, assim como os caras esquisitões e qq coisa muito legal ou muito ruim em carioquês, mas eu precisaria de um verbete inteiro para explicar todas as aplicações da palavra. Voltando ao sinistro, o sinistro mesmo foi que eu me dei conta de que 90% das pessoas que observavam a cena estavam literalmente cagando pro incêndio. Pouco se importavam com quem tinha perdido os móveis ou se tinha alguém ferido no prédio, a maioria segurava seus cachorros no colo e conversavam em pares, sorrindo e falando dos problemas da vida cotidiana. Sorrindo. Eu fiquei observando aquilo e pensei no bombeiro e no seu exercício diário de controlar o medo de perder a vida, na angustia dos moradores com medo de perderem seus bens, as conquistas de uma vida de trabalho, e nos cachorrinhos latindo um pros outros pro causa dessa confusão toda. O repórter do jornal chegou para cobrir o fato, assim como ele deve fazer todos os dias, e eu fui comprar uma barra de Crunch porque me deu uma irresistível vontade. Quando voltei, tudo normal. A vida na cidade grande é o exercício de não se importar com o próximo. Eu entendo bem disso porque meu quarto sempre foi uma zona até eu passar a ter um quarto só meu. É difícil se sentir responsável por um todo quando esse todo é muito grande, e olha que meu quarto só tinha 12 metros quadrados e a minha cama era tipo gavetão. Realmente se vc for dar um real que seja para cada um que te pede ajuda na rua...mas às vezes a gente se dá conta de que o mundo é feito de pessoas e não de estatísticas, de números. Aqui em Copacabana são 100 mil moradores e mais 300 mil outras pessoas que todo dia vem fazer alguma coisa por aqui. Todos se cruzam nas ruas, sem saber os nomes, cada um com seus problemas, como tem que ser. Mas não deixo de pensar que hoje, aqui na minha rua, tem alguém que perdeu sua casa, tudo que tinha. Provavelmente alguém com quem já cruzei na calçada e nem sei quem é. Pra mim isso tudo é compreensível, só me assusta a indiferença. Hoje em dia estamos tão acostumados a bisbilhotar a vida alheia pela tela da tv que tudo parece novela; o menino que passa fome, a senhora que foi atropelada pelo ônibus ou alguém que perdeu a casa num incêndio. A vida real é ficção.

posted by bruno at 17:49



w6.1.04


Plic, plic, plic, plic, faz o prompt do Word aqui na minha tela. Cada vez que ele pisca é como se estivesse me provocando, me incentivando a escrever. Para não vê-lo e escapar dessa sutil cobrança, me afastei por um tempo; faz mais de 10 dias que não sai nem uma linha da ponta dos meus dedos. Não foi final de ano, não foi viagem, como muitos podem ter pensado, o motivo de eu ter ficado sem escrever foi a necessidade de uma pausa, para tentar entender no que isso aqui se transformou. No final do ano passado, depois do post do desodorante Nivea, tomei conhecimento de que uma moça escreveu um e-mail para o fabricante reclamando que estes haviam deixado de produzir a marca preferida de desodorante do cara de uma banda que ela gostava. Disse ainda que o desodorante causava caroços embaixo dos braços e que eles precisavam urgentemente dar mais atenção aos consumidores. Indicou meu blog para maiores esclarecimentos. As 7hs da manhã, indo para o aeroporto, piscou na minha cabeça a palavra PROCESSO. Imaginei que alguém na Nivea poderia não compreender, assim como a moça, o conteúdo e o objetivo do meu texto e solicitar judicialmente que, por exemplo, eu tirasse esse texto do ar, ou tentar impugnar o meu blog, ou me processar pessoalmente por injuria e difamação. Saí de casa consternado e chegando no aeroporto recebi livros de presente, de alguém que leu aqui que agora eu desejo me dedicar mais a leitura. Desembarquei em Recife, recebi mais quatro, de pessoas diferentes, totalizando cinco livros recebidos em uma só viagem. Claro que é bom ganhar presentes, não é essa a questão, mas isso tudo me fez pensar no que esse blog se transformou. Num gigante, um gigante desconhecido. Quando eu escrevo, penso nos meus amigos, naqueles freqüentadores que conheço, e não nas outras 829 pessoas que vêm aqui diariamente. Só que essas pessoas existem, estão por aí comentando meus textos, indicando o blog para os amigos, citando-me em seus próprios blogs, pensando o que quiserem de mim, algumas mal interpretando minhas palavras que nem livro do Machado de Assis, parafraseando o Mc De Leve. Me senti exposto com tudo isso, vulnerável. É a patrulha invisível, é o silêncio que eu consigo escutar aqui da minha casa. Quando as pessoas dizem que lêem esse blog agora não consigo deixar de pensar: "ei, vc entende a linha entre realidade e ficção? Vc sabe quando é brincadeira, e quando não é??". No passado eu quase tive um problema com o Cachorro Grande por causa do que escrevi aqui, pintou até um site Eu Odeio Bruno Medina, mas durou pouco tempo, claro. E eu já tratei desse mesmo assunto anteriormente de muitas formas, como por exemplo quando eu disse que tenho que tomar cuidado quando tiro meleca porque todo mundo hoje em dia tem câmera digital. Não é bom se sentir vigiado. Se vc acha que eu sou um fresco, paciência. Se vc sonha em ser pessoa pública, parabéns, vai fundo, existe um lado bom. Mas eu me reservo o direito de falar dessa questão e de pensar o que eu quiser sobre o que eu quiser. Ouvi o Humberto Gessinger falando na MTV sobre a relação dele com os fãs. Sabiamente o Humberto falou que é um diálogo muito complicado porque pessoas que ele nunca viu na vida o conhecem profundamente. Sabem dos medos, das questões mais pessoais dele, através das músicas, através das entrevistas, é uma relação claramente desequilibrada. Curiosamente esse cara é considerado como um dos mais escrotos do meio artístico. Não será porque o cara é sensível e fala a verdade ao invés de ser hipócrita e fingir que sai pra tomar chopp com os fãs? Não será porque ele encara a questão e se afeta com isso ao invés de fingir que esse abismo não existe? Estou só especulando. Uma vez vi uma cena num documentário sobre os Beatles que eu nunca, nunca vou conseguir esquecer: um cara meio hippie toca a campainha na casa do John Lennon. Na ocasião ele gravava o Imagine, interrompe o take e vai atender a porta. O hippie, meio confuso, provavelmente emocionado com a situação e incrédulo de estar cara a cara com o ídolo, pergunta para o John se quando este fez Carry that Weight estava pensando nele. O John, com a maior paciência do mundo, responde: "Não cara, eu pensava em mim mesmo. Eu não conheço vc". O hippie concorda e vai embora. Engraçado porque o que ficou na minha cabeça dessa cena foi o fato da música em questão dizer "Boy, you´re gonna carry that weight, carry that weight for a long time". Esse peso, ao qual ele se referia na música, era o de ser um Beatle. Peso esse que curiosamente se transformou em tiros e acabou com a vida do cara, na porta da casa dele, no ano seguinte a gravação do documentário. Eu não estou me comparando com o John, nem acho que vou tomar um tiro, mas eu simplesmente consigo entender porque esses caras mais famosões acabam pirando. É foda. Eu não sou nada e já é complicado! É muita responsabilidade, é muita cobrança. É doido quando alguém chega com a mão tremendo pra falar com vc, ou quando chora. Vc fica feliz em ter causado aquela emoção mas ao mesmo tempo fica triste de não poder fazer muito, sabe? Enfim, não fiz curso pra ser artista, não sei direito como faz, mas da minha essência eu não abro mão. Não vou achar natural, não vou me acostumar. A pior coisa que pode acontecer com um artista é ele passar a acreditar no que dizem sobre ele. Pro bem ou pro mal. Eu não sei exatamente no que essas experiências todas vão me transformar, nem se eu deveria ou não tratar desse assunto aqui mas isso estava me impedindo de escrever. Pra que minha vida siga adiante...



posted by bruno at 14:41




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